Hoje dei por mim a pensar no dia em que a Teresinha nasceu. Estava ansiosa para a ver, para lhe pegar ao colo, para ter como toda a gente me dizia, o melhor dia da minha vida.
A data prevista para ela nascer era dia sete de Setembro, e toda a gente me dizia que ainda ia ter muito que esperar por ser a primeira filha, O que é certo é que dia 8, às sete da manhã as águas rebentaram. Assim começou um dia longuíssimo!
Mal as águas rebentaram, a minha preocupação foi ter o chão todo sujo, então pus o marido a limpar enquanto eu fui tomar um bom banho. Mal acabei, pegámos nas malas e numa toalha para o banco do carro (aqui a "dignidade" começa-nos a abandonar) e lá vamos nós.
Assim que cheguei ao hospital fui vista e acomodada num quarto. A minha médica estava a dar consultas noutro sítio mas ligava-me a toda a hora para saber em que ponto estava. E o meu ponto era sempre o mesmo "Estou óptima!".
A verdade era que estava mesmo óptima, não tinha uma dor, não estava desconfortável... nada. Quase parecia estar num hotel, quarto só para mim e a ver filmes e séries com o tablet.
A toda a hora me entravam enfermeiros no quarto a saber se estava tudo bem, se precisava de "drogas", se estava muito aflita e de seguida informavam-me que tinha só 2\3\4 dedos de dilatação (enquanto isto lá iam mais pedaços de dignidade pelo ar).
Ao fim de umas boas horas, lá comecei a ter uma certa "moinha" e decidi pedir logo a epidural não fosse a dor começar a escalar muito depressa. Este foi um dos passos mais dolorosos! Por alguma razão estranha começaram-me a dar os nervos, fiquei super contraída, suava em bica (e a médica era amorosa e explicava-me tudo, não percebi a minha reacção!) resultado, doeu-me horrores!
A minha obstetra (é Deus na terra!!) chegou e depois de me ver disse a frase que não me esqueço: "Ah pois é... não vai dar".
Lembro-me tão bem de lhe perguntar : "Não vai dar o quê?! alguma coisa tem que dar!" Aí soube que ia ter que fazer cesariana porque o meu trabalho de parto não evoluía e se continuasse assim o bebé entrava em sofrimento.
Estranhamente nunca tinha posto a hipótese de ter que fazer cesariana... fiquei outra vez nervosissima! Liguei aos meus pais (a quem tinha dado "ordens" específicas para não virem até eu dizer) a contar e em menos de nada estava na sala de operações!
Nunca me vou esquecer daquela sensação horrível de não ter dores mas de sentir alguém a mexer nas minhas entranhas! E o barulho... o barulho como se alguém estivesse a brincar com esparguete nunca me vai sair da memória!!
E a Teresinha nasce!! Apesar e o João dizer que não foi isto que se passou, é exactamente assim que me lembro! Mal nela nasceu a médica disse-me "parabéns, é mesmo mesmo bonita!" mas quando ma mostrou eu só lhe vi o rabo! O João diz que a puseram ao meu colo, mas eu juro que não! De seguida levaram-na para lhe fazer aqueles testes todos e a vestirem e o João foi com ela. E ali fiquei eu... amarrada a uma maca, sozinha a ser cozida. Nesta altura a minha médica veio-me dar os parabéns e deu-me uma festinha e um beijinho na testa. São pormenores como este que marcam toda a diferença!
O João volta com ela ao colo e diz-me "olha.. e não é que é mesmo bonita?!" (somos os dois muito morenos, cabelo preto e digamos que não temos as caras mais encantadoras, já contávamos que ela fosse meia "macacuça" como costumávamos dizer). Mas ao dizer isto sentou-se ao meu lado, num banco muito alto, ou seja... voltei a não a ver! E eles subiram para o recobro.
Quando já só estava com as enfermeiras ouvi a pior pergunta que se pode fazer à frente de uma pessoa que acabou de ser esventrada "Olha lá... não eram 21 tesouras? Só encontro 20". Morri ali! Mas era falso alarme e ainda nos rimos as três!
Tive um baque quando cheguei ao recobro e percebo que a Teresinha já tinha comido! Como assim não esperaram por mim?! Se eu desse de mamar ela tinha que ter esperado! Porque perguntaram ao Pai se lhe queria dar o primeiro biberon?! E porque é que ele disse que sim?! Fiquei tão frustrada!
A isto seguiu-se aquela altura óptima em que começa a passar o efeito da epidural e não se consegue parar de tremer! Tão mau!
Depois de toda a gente a ver e de se deliciarem, fomos os três para o quarto. Tudo parecia maravilhoso, a vida era cor de rosa e eu não tinha dores. Lembro-me de pensar "se é assim tão fácil acho que quero mesmo um batalhão de filhos!"
Só que não!...
Algum tempo depois estava na hora do levantamento, vieram duas enfermeiras amorosas que me ajudaram a levantar e perguntavam a toda a hora se eu estava bem. Nunca hei de perceber porque raio decidi armar-me em forte, e mesmo sentido a alma a esvair-se do meu corpo continuava a dizer que estava tudo tranquilo. Obviamente devo ter começado a perder a cor e uma delas perguntou directamente se eu ia desmaiar, ao que respondi apenas "sim". Quando dei por mim já estava na cama oura vez. Aqui começou o terror.
As dores eram enormes, não me conseguia mexer, tossir, engolir, espirrar e até falar doía! Enquanto isso, a Teresinha chorava aos berros e eu e o João tivemos um dos diálogos de que mais me arrependo de ter.
J - Já viste? Todos os bebés choram menos ela
T - Estás a gozar comigo?! Ela está aos berros!
J - Sim, mas os outros têm um choro irritante e ela não.
T - Pergunto-me a sério se estás a gozar com a minha cara!! Faz com que ela se cala ou desaparece daqui com ela.
É... não tenho imenso orgulho nesta conversa, mas existiu. Pouco tempo depois eles dormiam profundamente os dois, e eu lá continuava cheia de drogas em cima mas a morrer de dores.
Não demorei a perceber que era um mito chamar a este dia o mais feliz da vida.
Por esta altura lembro-me de olhar para a Teresinha e achar que eu era a pior pessoa do mundo... eu não senti de todo aquela famosa ligação que toda a gente diz que sente ao ver os filhos pela primeira vez. Senti apenas que era amorosa, mas eu não a conhecia, queria vir a conhecer, mas na verdade não conhecia ainda.
Nos dias seguintes veio a tortura dos puns... sim... puns! Sabia que tinha que os dar, mas as dores eram mais que muitas e eles acabavam sempre por voltar para trás e inchar na barriga... Achava que ia morrer a qualquer segundo, até chorava! Depois descobri que por alguma razão, sabendo que não podia tossir, acabava sempre por me engasgar quando bebia ou comia qualquer coisa. E isto acontecia sempre com visitas no quarto, eu inchada, a suar em bica colada à cama, a morrer de dores, a tentar dar puns e a ter que fazer conversa com meio mundo!
Quando finalmente era dia da alta, entra uma enfermeira no quarto e pergunta "já evacuou?"... demorei um tempo a pensar e lá percebi que ela me perguntava se já tinha feito cocó... Que saudades que tinha da minha dignidade por esta altura.
Decidida olhei para a retrete, tive um tête-à-tête com ela e decidi evacuar. Nah, depressa desisti da ideia! Não consegui! Uns minutos mais tarde veio a pergunta outra vez... "Já evacuou?" e a resposta repetia-se.
No final, a enfermeira apareceu no quarto com um clister e disse-me que se não evacuasse não podia ter alta! Paniquei! Fui para a casa de banho, mas as dores a mexer-me eram imensas e não consegui usar o raio dos supositórios... dignidade, volta, estás perdoada!
Quando a enfermeira me voltou a fazer a célebre pergunta, achei que o melhor que tinha a fazer era mentir! E assim, de consciência pesada mas muito aliviada (apenas mentalmente óbvio) fui para casa.
Aí começou toda uma nova aventura, mas fica para outras andanças.
O que é certo é que apesar de ter odiado o dia, de ter sofrido horrores, e de não ter sido de todo o melhor dia da minha vida, foi aquele dia que fez de mim Mãe e que fez começar a melhor etapa da minha vida. Percebi que não se resumia àquelas horas, mas a tudo o que vinha depois, fruto delas.
Não posso deixar de dizer que fui tratada sempre como uma Rainha por todas as pessoas do hospital, trataram-me sempre com imenso cuidado, como se não houvesse mais ninguém a precisar de cuidados.
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